Aos 29 anos, ele largou tudo para virar trapezista

“Talvez seja grosseiro o que vou dizer, mas a gente tem que ser egoísta. E quando digo isso, é porque você não consegue ajudar ninguém se não estiver bem. Para ajudar as pessoas, preciso estar bem, feliz. Não necessariamente com dinheiro, mas feliz. [Tudo] vale a pena enquanto você está sendo feliz. Se te traz alguma angustia, aí é hora de repensar”

Douglas Bardeline, 36 anos, trapezista

Estava sentada no chão, entre quatro estudantes de veterinária que discutiam algo relacionado ao curso deles. De repente, uma crise de choro. Era o primeiro sinal de que minha relação com o jornalismo – o meu sonho – não ia bem. Nas sessões de análise, que nunca entendi muito bem, a terapeuta dizia que era medo do que viria com o final da faculdade: “Termine o seu curso, um passo a cada dia, e tudo vai se ajeitar”.

E então, veio o circo. E veio o Douglas Bardeline, dono da frase acima. E, no meio de uma entrevista, entendi: não era a relação com o jornalismo que estava em crise. Era a relação com a vida que não ia bem. O dia a dia frenético na redação havia consumido minha paixão, mas a vontade de descobrir e contar histórias ainda estava ali.

Até que ponto vale a pena seguir um sonho?

A faculdade acabou, outros sonhos apareceram e, um dia, ouvi: “O que você vai fazer quando voltar ao Brasil?”. A pergunta me invadiu e, sem pensar muito bem, respondi: “Quero escrever sobre pessoas que seguiram seus sonhos”. Era no Douglas que pensava. Nos Douglas que existem por aí. Nas histórias que existem para ser descobertas.

Até que ponto vale a pena insistir em um sonho?

O Projeto Pare de Sonhar é sobre os outros, mas também é sobre mim. A cada encontro, descubro novas histórias e um pedacinho adormecido de mim. No meu terceiro encontro com o Douglas não foi diferente:

“Quando vi o caminhão trapézio, meu olho encheu d’água. Tinha 29 anos e, no dia seguinte, voltei até o circo. Entrei determinado. Questionei, aos outros, como poderia trabalhar com isso. Me disseram: ‘Leva um ano e meio para você conseguir fazer alguma coisa. Mas isso se Seu Zé, o dono do circo, te deixar subir’ – encarei como um desafio. Seis meses depois fiz o meu primeiro show”

douglas bardeline pare de sonhar ana sasso projeto
“Meu nome é Douglas Bardeline, tenho 36 anos e, desde os 29 eu sou trapezista. Eu era professor e, um dia, levei meus alunos à uma escola de circo, a Picadeiro Circo Escola, em Osasco (SP). Quando vi o trapézio, minha vida mudou. Me tornei aluno e passei a treinar todos os dias. Estar machucado ou desmotivado nunca foi desculpa. Então, decidi que queria mais: meu objetivo era me apresentar no caminhão trapézio. Um equipamento francês, que só essa escola tem. Ele monta sozinho um trapézio a 16 metros de altura.

Eu não poderia treinar ali, que era só para os profissionais mais gabaritados. Mas comecei a passar por cima de regras e me desafiar. Me diziam que o seu Zé iria brigar comigo. Quando ele estava perto, eu dizia: ‘Estou treinando para trabalhar para o senhor’. E não só isso: dormia no circo, fazia o que tivesse que fazer. Fui fazendo favores e me envolvendo nesse universo, nessa família. Até hoje, a bronca não veio.

Meu foco sempre foi sair dos meus outros empregos e me dedicar ao máximo ao que me fazia feliz, que era estar no picadeiro. O tempo foi passando e percebi que o Seu Zé estava encontrando algumas dificuldades para contratar professores. Vi ali a oportunidade de preencher esses espaços com o meu trabalho e ajudá-los. Nessa época, cheguei até a dar aulas de graça.

Foi quando percebi que minha relação com o circo estava em um ponto decisivo: aquilo era muito maior do que a vida que eu levava, até então. Eu deixava de cumprir minhas obrigações para realizar meu sonho. Tinha me envolvido de corpo e alma e tomei muito prejuízo financeiro. Na época, abdiquei de um salário de R$ 4 mil, em três empregos diferentes, para um de R$ 800. Mas o custo benefício do fazer circensesupera a questão financeira. Supera as rixas, brigas, discórdias, qualquer coisa. 

Então, decidi: eu não queria viver de circo, eu queria viver o circo. E não podia dizer que me sentia como um artista circense, sem viver ali. Vendi tudo o que tinha, deixei minha casa de aluguel, comprei um trailer e fui morar nos fundos do circo. Nessa brincadeira, já estou há dois anos e meio assim. E morar no circo tem muitas responsabilidades. Você se torna responsável pelo espaço, já acorda trabalhando. O trabalho faz parte da sua vida… e eu deixei que ele tomasse conta de mim.

Minha família me admira, porque fui corajoso e provei para eles que sou artista porque é o que eu quero ser – mas, se quiser, posso ser qualquer outra coisa porque tenho capacidade para aprender. Além disso, sempre paguei minhas contas sozinho e, como a gente sabe, para provar para as pessoas que você é alguém, você tem que possuir, não basta ser algo.

Quando meus pais começaram a ver vídeos e fotos do que eu fazia, eles ficaram malucos: ‘Como você fica nessa altura? Você é doido’, diziam. Mas eles aceitam, porque sabem que é o que eu gosto de fazer. No fim, eles foram obrigados a aceitar, porque eu já não morava com eles há muito tempo. A arte me colocou para fora de casa, me fez procurar um lugar melhor pra mim, onde eu pudesse viver disso. Acho que para eles eu vivo no mundo da lua. Muitos acham que qualquer dia eu vou quebrar a cara e procurar um emprego ‘de verdade’.

O problema é que eu gosto de adrenalina, aventura, sentir medo, frio na barriga. O trapézio me dá isso. E ao mesmo tempo, tem glamour, fascínio. Se o seu Zé parar de trabalhar com o caminhão, eu não paro de fazer circo, mas paro de trabalhar com ele. Pra mim não tem sentido se não for assim. Trabalho pelo caminhão trapézio. As outras coisas, pra mim, são todas supérfluas. Não me importo se não der aula ou se não fizer show como palhaço, por exemplo. Mas se não fizer trapézio, não tem sentido pra mim.

Hoje, meus alunos me pedem conselhos. E eu digo sempre que existem dois tipos de ser humano: o que nasce com a bunda pra lua e o que nasce com a bunda para a terra. O primeiro, tudo que faz vira ouro – e essa pessoa não tem culpa disso. Mas, eu tenho a bunda virada para a terra – e tenho que ralar. Só que não adianta só ralar: tem que ter objetivos,e acreditar que você pode – porque ninguém, nem seu pai, sua mãe, sua namorada, vai fazer isso por você. E na arte, se você não acreditar em si mesmo, ninguém mais vai. Porque a arte é olho no olho, é viva. Mesmo que a sua arte seja uma mentira – que você no palco seja outra pessoa -, o seu produto, que você esta vendendo, é a verdade.

Eu ainda tenho o objetivo de trabalhar fora do Brasil. Não quero morar fora, mas quero fazer um trabalho como trapezista em outro país e depois voltar, com essa experiência.

Mesmo se pudesse escolher entre um emprego normal, com ‘segurança’, não trocaria de vida. A gente é sobrevive, não importa se ganha bem ou mal. A gente é brasileiro, a gente se vira. Às vezes me pego sem grana, mas em vez de ficar lamentando, xingando, eu vou lá e penso diferente. Daqui a um pouco, dou uma reviravolta e tudo muda”

Douglas Bardeline pare de sonhar projeto ana sasso (1)Douglas Bardeline pare de sonhar projeto ana sasso (4)PicMonkey Collage(Fotos: Instagram do Douglas, que você pode ver aqui)

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VEJA MAIS HISTÓRIAS COMO A DO DOUGLAS NO PROJETO PARE DE SONHAR

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5 comentários sobre “Aos 29 anos, ele largou tudo para virar trapezista

  1. Estados Unidos Brasil disse:

    Que inspirador! Estou neste processo de transiçāo também e por acaso tenho 29 anos rs. Espero chegar aos 36 com esse espiríto ;)

    Obrigado por dividir!

    Curtir

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