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O sol batia em seus olhos e a claridade parecia alcançar o seu cérebro. Ela fechava os olhos e recostava a cabeça no banco do ônibus. Lembrava de um tempo onde sorria tanto que tinha crises de enxaqueca mais tarde. Não era feliz, mas fingia com maestria.

Não sabia dizer como, mas a melancolia sempre a acompanhou, mesmo em seus momentos mais felizes, se assim pode-se dizer. Era uma espécie de sombra ou maldição. Imaginou seu nascimento. A janela do quarto estilhaçando. Um demônio, uma bruxa, algo ruim entrando pelo buraco feito e dizendo: “a infelicidade será constante. Sempre algo faltará”. E partia.

“Não existe gente burra e infeliz”, pensava, como quem tenta confortar-se. “És infeliz, mas pelo menos guarda alguma inteligência”.  Quem sabe o que se passa por trás daqueles olhos, doloridos com a claridade?

Abre-os. Dá sinal, o ônibus para. Desce em frente a uma sorveteria.

“Ninguém é infeliz com um sorvete em punhos”, pensa. Gostaria que a frase tivesse sido dita por alguém especial, mas foi apenas sua consciência, algo que leu em algum livro barato ou viu em algum filme.

Escolhe três sabores distintos, incombináveis entre si. Sai.

“Ninguém é infeliz com um sorvete em punhos”.

 

Era.

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