Ela não sabia voar… e se tornou comissária de voo

Uma das coisas mais difíceis de escrever – pelo menos pra mim – é escrever sobre alguém que a gente gosta muito. As chances de não fazer jus e desapontar são altas. Rabisca, escreve, reescreve, os dias passam e nunca está perfeito. É preciso focar em um deadline e respeitá-lo. De outra forma, o rascunho não vira texto nunca. Além disso, a parcialidade fica de lado e, o jornalismo autoproclamado sério e ético – insira ironia e risos nervosos aqui –, morre um pouco. Como a intenção aqui é a de contar histórias que inspirem – e essa é uma das minhas preferidas -, vamos no caminho avesso. Enjoy the ride:

“Você já pensou em ser aeromoça?”, perguntou um cliente da livraria em que trabalhava Andressa Caggiano, em Campinas (SP). E foi essa frase que mudou todo o rumo da estudante de letras que, desde os 15, viajava o interior do estado se apresentando em peças de teatro.

A ideia ficou alguns dias amadurecendo na cabeça de Andressa até que decidiu: era esse seu futuro. Fez um curso de comissária, passou um final de semana na selva, no Pico das Cabras, também em Campinas, estudou – muito -, passou nos exames médicos para o certificado médico da aeronáutica e,  alguns meses depois, foi aprovada pela ANAC. O destino, quando certo, não foge: não demorou e foi contratada pela Azul – onde passou por mais um treinamento, dessa vez específico para as aeronaves da companhia.

Foram dois anos e meio na empresa, até que, um dia, um companheiro de trabalho sugeriu que ela participasse do processo seletivo da Emirates, uma das maiores companhias aéreas do mundo. Assim como da primeira vez, não deu para trás e foi.

Todas as etapas do processo, coincidentemente, caíram nos dias em que estava de folga e em São Paulo. Na primeira fase, a altura atrapalhou. Para ser aprovada é preciso alcançar o mínimo de 2m,12cm de altura, a altura média dos bagageiros. No meio da prova, não alcançou. Você acredita em fada madrinha? Ainda sim a avaliadora a aprovou. E a disse:  faça yoga, pilates, alongamento, mas chegue mais alta na próxima etapa. Por motivos desconhecidos, duas semanas depois, conseguiu.

Foram mais três fases até que, em uma madrugada, recebeu uma ligação no celular, identificada como “um número gigante”. Era uma chinesa, a parabenizando pela conquista. “Não entendi quase nada do que ela disse. Mas sabia que o resultado era positivo”, conta, com os olhos longe.

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“Não foi difícil entregar minhas coisas e meu crachá, porque sei que vivi intensamente tudo que eu tinha para viver. Que aprendi o que deveria aprender. Conheci pessoas e lugares maravilhosos, às vezes me decepcionei, mas que existe algo mágico em ser feliz mesmo quando o seu dia está sendo ruim”

No dia do trabalho, em 2014, começou sua nova jornada – dessa vez em Dubai. Família, cachorro e namorado ficaram. O começo não foi fácil, como em qualquer pontapé. Mas, em poucos meses, a menina que até alguns anos atrás nunca tinha entrado em um avião, já era do mundo. Amsterdam, Barcelona, Itália, Rússia, Austrália, Londres. Até agora, são 25 carimbos novos no passaporte.

Em setembro voltou ao Brasil. O namoro de quatro anos – que começou na livraria, ainda em Campinas -, também transmutou. Se casou, com direito a  lua de mel em Dubai. Depois de 10 dias, João, o noivo, voltou. Sozinho. “Depois que você se encontra nessa vida, o difícil é se imaginar fora”, diz.

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“Descobri das despedidas que todo ‘tchau’ é também um ‘oi’. E que ir embora também é chegar. Partir é então se repartir para ir, mas para poder voltar. É buscar! Partir é um pouco como morrer agora, para renascer em outro lugar. Um pouco como voar… É um desprender-se totalmente solitário. Por isso eu poderia ser só, ao invés disso, escolhi ser pássaro”

Se ela se arrepende? Nunca. E que sonho ela ainda poderia ter, depois de realizar a maioria deles? “Voltar. Voltar para o meu marido. Terminar meus vinte e poucos anos pronta para assumir responsabilidades. Ter um cachorro, uma planta que não vai morrer. Assistir novela todos os dias, dormir na mesma cama e, quando viajar, ficar mais de 24h em cada lugar. Vida leve. Meu sonho é saber  hora de parar”. O mundo é teu, Andressa.

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Atualização: você pode acompanhar o dia a dia da Andressa e também dicas sobre a profissão dela no Não Perturbe. Mas perturbem, ela é encantadora :)

Veja mais histórias como a da Andressa no Projeto Pare de Sonhar.

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