[Guilhermices] Revivendo

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– Qual será o nome dele?

– Humm… Meleca?

– Não, né?!

– Abajur?

– Quando você encontrar com ele vai ser mais fácil pensar em um nome.

Não foi. Mas foi assim, em um final de tarde frio e nublado, que eu conheci o Nino, o gato, aos quatro anos. O nome foi uma abreviação de menino, já que ninguém pensou em um nome melhor que Meleca. Nino viveu até os meus 22 anos. Acompanhou todas as fases da minha vida desde então. Vestiu roupa de boneca e andou pela casa em um carrinho de bonecas, dormiu comigo enquanto eu chorava pelo meu primeiro pé na bunda e era o único a ficar ao meu lado durante todas as brigas familiares da adolescência. Tinha a mania de miar durante a madrugada. Uma vez, acordou seu avô, que saiu do quarto furioso. Deu um olé nele, entrou no meu quarto e eu o escondi dentro do guarda-roupas. Quando seu avô perguntou – repito, furioso – se eu sabia onde o Nino estava, neguei.

Antes mesmo de descobrir que estava grávida, ele já sabia – e passou a dormir todas as tardes na minha barriga. E foi no seu berço que ele passou a dormir quando você chegou em casa. Pela primeira vez eu não me importei em dividi-lo com alguém.

Logo no seu primeiro ano de vida ele ficou doente. A gente não entendia porque, mas ele não conseguia comer e foi emagrecendo cada dia mais. Tinha que tomar soro no veterinário, dia sim, dia não. Eu ainda não tinha idade para dirigir, mas o colocava na caixa de transporte e em no carrinho de bebê – agora um de verdade. Levei na benzedeira, três dias seguidos. Cheguei até a tirar leite do peito e servir em um potinho, com a esperança de que isso ele conseguisse comer. Sem explicações também, ele sarou alguns meses depois.

Viveu mais três anos muito bem, obrigado, até que um dia o dia chegou. Até hoje você pede, com lágrimas nos olhos, pra gente não falar sobre ele. “Eu sinto muita saudade”, você diz. Eu também. E choro, escondida, vez em quando.

Meses depois, adotamos o Chico. Você tinha quatro anos e, quando entrou no quarto onde ele estava, disse: “Oi Chico! Eu sou seu irmão, Gui”. No carro, brincou: “Mãe, ele tem patinha de leão!”. No ano passado, o Chico fugiu. Desapareceu por um dia e uma noite. Nesse tempo, você compôs uma música pedindo que ele voltasse. Na manhã seguinte, ele te escutou. Quando te acordei, com ele no colo, você disse, chorando: “Meu gatinho!”. Até hoje, essa foi a única vez que ele nos fez chorar.

Quando eu tinha quatro anos, não existia a fotografia digital. Comprar filmes e revelá-los era caro. A gente só tirava foto em comemorações ou quando o filme “estava em promoção”. Até hoje tem um monte de negativos que não foram revelados aqui em casa. Eu só tenho algumas fotos com o Nino  – pouquíssimas, se comparadas a quantas você tem com o Chico. Vocês são inseparáveis. Dormem juntos e ele fica ao seu lado enquanto você está jogando vídeo game ou assistindo TV. De manhã, o ronron dele é o seu despertador.  E eu filmo, tiro fotos, amasso vocês. Às vezes, quando pego o celular, Chico já me olha com cara de quem diz: de novo, meu? Me poupa.

E é com vocês que  eu revivo, todos os dias, toda a alegria e saudade que o Nino me deu. Obrigada.

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