Porque eu parei de escrever sobre sonhos

Como já disse na sessão sobre mim, quando me interesso por um assunto, vou fundo até enjoar. Nesse caso, foi diferente.  Eu peguei bode, o que é muito pior.

Vamos do começo:

Em 2013, como já disse, fui estudar Marketing na Califórnia. No último módulo, uma das minhas professoras preferidas me convidou para ter uma conversa. Lá fui eu.

Ela queria saber mais sobre mim. Expliquei que era jornalista e o que mais gostava nisso era poder conhecer e contar a história das pessoas. Falei sobre o Douglas, que era professor e se tornou trapezista aos 29 anos. Disse que histórias como a dele me inspiravam e eu gostaria de escrever sobre gente assim, que tem algo a contar.

E ela… surtou. Disse que eu não tinha noção do que estava dizendo, que isso poderia ser algo muito legal e que – risos – me via até na Oprah contando sobre um projeto assim.

Veja bem: ela já tinha trabalhado com a Madonna (!!!). Ter alguém como ela dizendo que uma ideia pequenininha da minha cabeça podia ser algo rentável, foi tipo isso:

giphy (3)

#leonina


Eu comecei a conversar com pessoas incríveis e ler sobre esse assunto em livros e na internet. Mas, em algum lugar nesse processo, algo passou a me incomodar:

Quase sempre eu lia a mesma coisa com palavras diferentes. Modelos de vida que se transformaram em modelos de negócio – e um negócio muitas vezes caríssimo e bem fora da minha realidade financeira.

Então, ao escrever sobre sonhos, percebi que andava em uma linha tênue entre o que realmente importa e ‘a incrível história do (a) _________  que largou tudo para _________ ’ , que a gente vê no Facebook 25 vezes ao dia.

E isso, por um lado, é um ótimo sinal! Mostra que, cada vez mais as pessoas não se contentam em ver a vida passar pelo monitor do escritório. Cada vez mais as pessoas estão querendo olhar o mundo de uma maneira diferente daquela que fomos moldados. Cada vez mais estamos abertos a novas culturas e experiências – e que bom!

Mas quem foi que disse que esse modelo é o modelo ideal para todo mundo? Quem foi que criou esse ‘novo modelo’ de vida e felicidade e disse que só se ‘vive um sonho’ assim?

Quando quis escrever sobre sonhos, eu queria ir além. Queria mostrar o lado pé no chão de sonhar – e não aquele do Instagram. Queria olhar nos olhos das pessoas e sentir o que elas tinham a dizer. Eu mesma, que sempre sonhei em conhecer Paris, tomei o maior tombo – francês! – ao perceber que a cidade nada tinha em comum com quem eu era naquele momento.

Paris: not all that jazz

Paris: not all that jazz

E se, assim como eu, quando a gente finalmente ‘chega lá’ – onde quer que esse ‘lá’ seja – a gente percebe que não é nada daquilo que imaginava? Ou se, quando a gente chega lá, percebe que já está em busca de outra coisa? Qual o problema? Onde começa e onde termina um sonho? Eu, nós, todo mundo, somos seres faltantes. E tudo bem!

O que me incomoda em tudo isso é vender-se como um pacote/modelo de negócios e estratégias prontas que, magicamente, dão certo para ‘todo mundo’. Quem foi que disse que eu sou todo mundo? Quem foi que disse que 10 vídeo aulas caríssimas vão resolver a vida de alguém? E se não resolverem? É sinal de que eu não “tentei o bastante” ou de que esse é um negócio rentável – mas que nem sempre dá certo? #polishop

Depois de ler muito sobre esse assunto e diferentes pessoas vendendo tudo isso por preços exorbitantes, eu bodiei. Não consegui encontrar – e a culpa é minha – um tom que se diferisse do que todos os outros já diziam – e esse não era o meu propósito.

Basicamente, o que eu não quero é gerar a ansiedade que ler sobre esses estilos de vida me causavam. “Faça meditação. Tenha um diário. Anote todas as suas ideias. Tenha um blog. Faça vídeos. Convide seus amigos a aparecer neles e falar sobre seu produto/estilo. Faça parcerias. Acorde com o nascer do sol e faça exercícios.Corrida é um ótimo antidepressivo! Não coma carne. Seja saudável. Encontre quem você é, agora. Em 10 passos, em 5 aulas, por  10 mil reais. Leia livros. Leia o meu livro (…)”

A vida não é uma fórmula matemática ou um estudo de neurociência.

Por isso, por favor, pare de escutar os outros e escute você.  E se ainda sim você achar que as coisas que escrevo aqui valem de algo, questione-se. Se não achar, tudo bem. Mas indague, sempre. Todo mundo, inclusive a mim. E siga seus sonhos. Mesmo que alguém que conhece a Madonna tenha te dito que outra coisa é melhor.

Madonna-performs-in-Bucha-001

Ok? Ok. 

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3 comentários sobre “Porque eu parei de escrever sobre sonhos

  1. Robécia disse:

    Genial seu texto!
    Não tem o que falar, é simplesmente o que todos precisam entender, que não adianta seguir as coisas só por seguir pq fulano disse que é bom, é necessário se sentir encontrado ou até mesmo perdido, independente de como se sinta, sentindo bem é o que importa.

    Abraços, ☼

    Curtir

    • Ana Sasso disse:

      as fórmulas de todo mundo não servem pra todo mundo, né? é preciso encontrar a nossa :)

      obrigada por aparecer aqui, querida! fico feliz que gostou :)

      Curtido por 1 pessoa

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