A eterna sensação de ser uma fraude

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Da página Gato da Ansiedade, que descreve meu dia a dia com maestria

A porta da sala abriu e, então, ouvi meu nome ser chamado pela primeira vez:

– Ana Thais? Dona Adriana está chamando.

Conseguia sentir meu rosto queimando por dentro. Dei um sorriso amarelo, fingi não sentir nada e desci as escadas da escola. As pernas tremiam, as mãos suavam e faltava o ar. Repassava em minha cabeça todos os meus passos dos últimos e dias e relembrava todas as coisas erradas que tinha feito até então. Dona Adriana era uma das coordenadoras do colégio e a cena se repetiu incontáveis vezes durante o ano da sétima série.

Ela não sabia e nem nunca me perguntou mas, um ano antes, minha avó tinha morrido. Evitar a escola havia se tornado um hábito desde então. Até a morte da minha avó, meu maior medo era ser chamada (em voz alta) para participar das aulas de reforço, oferecidas fora do horário de aula. Eu era aquela garota. Aquela, que fechava as notas o terceiro bimestre – mas vivia com medo de repetir o ano até o momento em que recebia o boletim final, em dezembro.

Anos depois, mesmo não cabulando mais aulas, quando alguém aparecia na porta da sala na faculdade, tinha certeza que sua primeira frase levaria meu nome e eu seria descoberta de novo.

O farol amarelo que passei, a prova que colei, a conta que paguei no dia 6, e não no dia 5. Em algum momento, tudo isso virá a tona.

Em algum momento, a chefia vai perceber que, na verdade, eu não sou tão boa funcionária assim. Meu filho vai enxergar que, como mãe, sou uma piada. Meus textos são cópias, fragmentos de vários outros que li. Nada é original. Tudo não passa de uma farsa.

Deito a cabeça no travesseiro e, entre o sono profundo e a realidade, o pensamento se alimenta de mim: e se amanhã for o dia? O dia em que, finalmente, farei algo horrível que comprove todas minhas teorias sobre mim mesma? Será amanhã em que a máscara de pessoa boa, centrada e comum cairá por terra e todos saberão? O dia em que pessoas que trocaram poucas palavras comigo aparecerão nos jornais dizendo que “nunca imaginaram” que eu era capaz de tamanha atrocidade?

“Dona Adriana está chamando”, diz o despertador. Mais um dia em me escondendo por trás de uma identidade secreta, me preparando para a próxima vez em que serei descoberta.

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