Muito além da política

Ontem recebi uma mensagem de uma das mulheres – e amiga – mais profissionais que eu já trabalhei. Ela me disse que estava procurando um emprego novo porque foi chamada de “mulherzinha” pelo chefe. Ouviu que “deveria ser menos emocional” e “mais masculina”. Depois dessa conversa, cumpriu seu horário e foi embora mais cedo do que o costume.

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No dia seguinte, levou uma comida de rabo por ter ido embora “mais cedo” (repito para os que não entenderam: cumpriu seu horário). Questionou então, porque um colega, que chamaremos de Amigo do Chefe, pode fazer horários diferenciados. Ouviu que “ele estava com problemas pessoais”. Enquanto ela deveria ser “menos emocional”, mesmo cumprindo suas obrigações, AC estava com “problemas pessoais”. Sente a diferença?

Não conheço AC, não sei por quais problemas ele passa e, sinceramente, também não tenho o mínimo interesse em conhecê-lo ou conhecer o Chefe em si. E, como jornalista, não preciso escutar o “outro lado da história” por um simples motivo: já escutei – e vivi – essa história muitas vezes. Sei que minha amiga não é a primeira e não será a última a passar por isso.

Essa história abriu, na minha cabeça, espaço para outro problema que enfrentamos nessa semana mais quente que o Sol: gente que desfaz amizades “por política”.

Veja bem: amizades não acabam “por política”. Amizades acabam por falta de respeito, por abuso, etc. Deus me livre de ter ao lado minions* que reproduzem apenas o que digo – até porque digo muitas besteiras. Mas quando alguém que considero amigo bate palma para quem faz apologia a torturador e é declaradamente machista, misógino, homofóbico, racista, entre outros, o buraco é mais embaixo, por assim dizer. Não é “só a sua opinião” quando a “sua opinião” matou e mata muita gente todos os dias.

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Quando tentam me ofender me chamando de feminista

E é exatamente por isso que certos tipos de relações, eu prefiro deixar para lá. Porque amigo, amigo messsssmo,  tem sempre a porta da minha casa aberta. E na minha casa vive meu filho, aquele mocinho de 9 anos, que joga Minecraft, fala de futebol o dia todo, acha que inventou o sapatênis e diz coisas como “só Jesus na calça”.

E, enquanto eu puder, vou evitar – e brigar – para que ele não ouça esse tipo de discurso. Não porque ele é um princepezinho e deve ser protegido de tudo que há de mal no mundo. Mas para que ele não cresça achando que é normalzão chamar um gay de “viado”. Ou que é normal chamar uma colega de trabalho de “mulherzinha”. Que aplaudir machismos é de boa. Que diminuir qualquer mulher – incluindo a presidenta -, LGBT ou pessoa que se encaixe em minoria é tranquilão. Apenas porque ele, como homem, pode fazer isso.

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“Eu sou esperto, você é burra. Eu sou grande, você é pequena. Eu estou certo, você está errada”. No filme, a continuação da frase é: “e não há nada que você possa fazer”.

Porque atitudes valem mais que imagens e frases bonitas no Facebook. E eu (tento) ensinar e promover respeito. Erro todos os dias. Mas reconheço e tento melhorar.

Respeito todo tipo de opinião, até porque quero aprender com elas. Mas nunca, jamais, vou aceitar discurso de ódio – perto de mim ou do meu filho. E isso, migos, vai muito além de política.

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