Tem que publicar, sim

Dia desses eu li um texto chamado Você não é como aquelas, no Lugar de Mulher, que dizia:

No fim das contas eu percebi que eu sou sim, muito dessas, desse tipo de garota, igual a milhões de garotas – as violências a que somos submetidas, físicas, sexuais, emocionais, simbólicas, estruturais muito mais nos aproximam do que nos separam.

E essa frase veio bem a calhar com o momento que venho enfrentando. Primeiro veio o livro Faça Acontecer – Mulheres, Trabalho e a Vontade de Liderar, da Sheryl Sandberg, chefe operacional do Facebook e ex-diretora no Google. Apesar de o título nenhum pouco atrativo e meio auto-ajuda, baixei no Kindle e comecei a ler por influência desse post da Thais Farafage. 

Nas primeiras páginas, me fisgou:

Faça Acontecer Mulheres, Trabalho e a Vontade de Liderar Sheryl Sandberg google facebook resenha

Então, comecei a pensar em todas as coisas que, aimeudeus, só aconteciam comigo, mulher, branca e injustiçada da classe média. E ficou óbvio que tudo isso não era só comigo. Finalmente enxerguei o motivo de todas as minhas inseguranças e “neuras”. E percebi que elas não eram só minhas – e olha que estávamos falando de ambiente e relações profissionais.

É claro que eu sou feminista. É claro que eu sempre soube dos abusos e violências que nós ouvimos ao longo da vida. Mas nunca – e escrevo com um pouco de vergonha aqui – parei um segundo para pensar no quanto isso vai além e se desenvolve em todos os aspectos da nossa vida:

O professor de marketing que estudou ~nas melhores universidades do mundo~ interrompendo minha apresentação para fazer observações machistas/homofóbicas/preconceituosas. O chefe que, tentando parecer legal, pediu para que os colegas de trabalho me respeitassem porque “eu era mãe” (se não fosse, tudo bem me tratar feito lixo?). Diretor de empresa dizendo que “podia ser meu pai se eu quisesse”, depois de ver minha tatuagem escrito pai, no pulso. Ouvir que não podia fazer algo porque “não é coisa de menina”, que eu deveria me vestir “mais como uma mocinha” ou “não usar roupas curtas” e “tentar não chamar a atenção”. Relacionamento abusivo no qual “se eu fizesse mais uma tatuagem ou pintasse o cabelo de novo”, iria ficar solteira. Ficar apertada no transporte público, porque o ômi do lado resolveu que as pernas dele merecem mais espaço que as minhas. Morrer de medo no transporte público porque algum cara está olhando estranho. Ouvir a colega de trabalho dizer que fulaninho “só podia estar apaixonado por mim”, quando ganhei um elogio público pelo trabalho bem feito.

Poderia escrever só sobre isso. Mas hoje, não, porque depois desse livro veio ainda a oficina de escrita criativa da Clara Averbuck (que já comentei nesse texto), com uma turma~ de cinco mulheres incríveis. Logo nas apresentações, mais um tapa na cara: todas tinham vergonha do que que escreviam. Todas temiam que seus personagens e textos fossem reconhecidos na vida real. E, claro, todas – com textos incríveis – tinham inseguranças e alguém para atravancar o caminho da escrita – ou da vida. “Não pode ter vergonha de publicar! Olha o monte de merda que ozomi publicam sem vergonha nenhuma”, falou a Clara. Como diria meu filho: turn down for whaaa.

E aí me lembrei da primeira vez que parei para levar um clipe da Madonna a sério, com uns 11 anos:

Não é fácil, molieres. Mas se a gente não se unir/publicar/falar, vai ser ainda mais difícil. Uni-vos.

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