Apesar de

Por muitos anos, o verão foi minha estação preferida: férias, piscina, finais de semana na praia, amores que nunca subiram a serra, ver o fim de tarde deitada em uma rede ou chupar manga – direto do pé – sentada em uma varanda.

paris janela apesar deAs responsabilidades da vida adulta me fizeram mudar de opinião e a tranquilidade – e talvez transitoriedade – do outono transformaram minha estação preferida na atual: céu azul, vento fresco durante o dia, noites frias. Alguns dias, porém, são mais difíceis do que os outros.

O frio lá fora atrapalha o amanhecer. Em cima do peito, cresce um piano pronto para criar poesia. A cama e o edredon engolem o corpo, enquanto o medo corre pelo quarto e faz tanto barulho quanto seis crianças hiperativas. Os olhos pesam tanto quanto incham.

Como diria Chico, nesses dias é preciso viver “apesar de você”, do monstro, da “coisa”. Pra isso, tenho alguns rituais. Quase como uma oração, pedindo para que os monstros deixem pra lá, que procurem outro quarto, outra cabeça para atormentar.

Gosto de ter a certeza entre os dedos e olhar fotos antigas. Não apertar a alma e vestir o que já tem o formato do corpo. Mastigar a comida com calma enquanto na mesa descansa o café – com leite, caramelo, cacau e tudo o que não me permito em dias normais.

Só por hoje quero saber do que esquenta o peito e conforta como um abraço. Um velho episódio de Friends, daqueles que já conheço as falas. Ou, quem sabe até, alguma história desconhecida e perdida entre as 10 temporadas.

Guardo alguns livros para esses momentos. Gosto especialmente daqueles que reúnem cartas, como O Jogo da Amerelinha, do Cortázar, ou crônicas, como Pequenas Epifanias, do Caio Fernando Abreu. Finalizo cada página com o suspiro de quem recebeu exatamente aquilo o que precisava. Os jornais, a TV e as más notícias – só hoje – deixo para o grande público.

Gosto de ver ilustrações e perceber que, na página 2, não somos tão diferentes assim. Gosto de arrumar as gavetas, como quem abre espaço para o novo e passa o velho para frente. Abrir as janelas e deixar o vento apagar as velas que acendi para enxergar alguma luz.

A noite, um dia é só aquilo que diz: um dia. E o que importa é vivê-lo. Apesar de.

Texto orginalmente PUBLICADO NO COLETIVO WE LOVE.

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