O que inspira vs o que causa ansiedade

A ideia desse texto veio quando resolvi passar um final de semana sem acessar o Facebook. Apesar de/principalmente por trabalhar com mídias sociais, precisava de alguns dias – ou algum tempo – longe de toda aquela informação e queria aproveitar a queda nas temperaturas para ir ao interior.

De primeira, pareceu fácil. E foi. Mas, mesmo longe do Facebook, as informações que ele e as outras mídias trazem, parecem não sair tão fácil da nossa  (ou da minha) cabeça. Tomando sorvete caseiro, em uma fazenda no meio do nada sem nem sinal de 3G, me lembrei do pôster do filme Comer, Rezar, Amar, com a Julia Roberts. Veio então a inevitável pergunta: “mozão, tira uma foto minha tomando sorvete?”.

julia roberts sorvete comer rezar amar

Mais tarde, com o pôr-do-sol em uma mistura de rosa e laranja, imaginei uma foto que mostrasse todo o look do dia (!!!!) e o céu ao fundo, com a maria-fumaça da cidade ao lado. A luz está ótima, pensei.  Em seguida, a questão foi: toda essa produção para quem, por quem? Para quê?

O problema não está no Facebook. O problema, talvez, esteja em todo o tipo de informação que recebemos, sem perceber, o tempo todo. São blogueiras que viajam o mundo todo em 7 dias com um fotógrafo a tiracolo. Para conseguir a selfie perfeita, Kim Kardashian tem uma assistente para segurar um flash externo e tira mais de 50 fotos. No Pinterest, são projetos Do It Yourself que, caso tentasse, o máximo que alcançaria seria colar os próprios dedos com cola quente.

No Snapchat, o dia a dia frenético de celebridades famosas por nada assusta. São fãs que vão até aeroportos e procuram rastros em vídeos de 10 segundos afim de descobrir pistas sobre onde seus ídolos (oi?) estão. Ao encontrá-los, gritinhos histéricos. Esses ídolos, na maioria das vezes, são  pessoas que sequer apareceram na televisão (não que isso seja importante) ou que mal tem o que dizer.

Enquanto isso, os mortais (oi), que trabalham 11 meses por um mês de férias, almejam fotos perfeitas com nossos smartphones – que nem sempre são iPhones, que nem sempre tem uma boa resolução e, nem sempre com um bom assistente.

paris louvre midias sociais facebook

Eu representando euzinha, o fotógrafo representando a vida

Decidi, então, pesquisar o número de informações a qual somos submetidos diariamente. A missão falhou. O Google me trouxe milhares de informações – desde os motivos cósmicos para vermos horas duplas, como 11:11 ou 20:20, até matérias da Superinteressante sobre neuro propaganda e porque sentimos que o tempo está cada vez mais curto. Comecei a ler a última (Tempo: cada vez mais acelerado) e terminei com o nome de – mais um livro – que gostaria de ler mais tarde (estamos com uma lista de 42 e, ainda sim, sinto como se não tivesse nada para ler).

Sem respostas, os questionamentos não pararam: até que ponto o número de informações que recebemos – formal ou informalmente – atrapalham e ajudam em nossas vidas? Até que ponto o board “decoração”, no Pinterest, traz inspirações para o dia a dia e quando ele começa a causar uma ansiedade – ou histeria coletiva – em jogar tudo o que temos fora e começar do zero – desprezando tudo aquilo que já temos/conseguimos? Talvez, isso valha para outras editorias, como saúde, política, cultura, comportamento… Em plena “crise”, as notícias sobre H1N1 causaram horas de filas nas clínicas que diziam ter a vacina atualizada (por R$ 150).

No fim, terminei o final de semana imersa mais perguntas que respostas. Me lembrei de um artigo sobre  uma VP da Sony que, há alguns anos, decidiu usar a mesma roupa para trabalhar, todos os dias. A ideia é diminuir a quantidade de decisões que tomamos todos os dias e, assim, decidir com maior facilidade. Mais tarde, adormeci procurando referências de “work uniform” no Pinterest, ainda me questionando: como reduzir o número de escolhas e de informações? Mas isso, talvez, seja assunto para outro texto…

Texto originalmente PUBLICADO NO COLETIVO WE LOVE.

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