Ainda há tempo

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Quando descobri Criolo há uns 4 anos fiquei alguns dias com a letra de Vasilhame socando na cabeça, como quem diz: vai dizer que você nunca pensou nisso, fofa?

E permaneceu ali, indigerida, como um engasgo no meio da refeição, ou quando a gente tenta. Outras coisas me incomodavam, por outros motivos, e a vida seguiu. Corta.

Criolo escreveu as músicas de Ainda Há Tempo, seu primeiro álbum, há 10 anos e, há alguns meses, relançou o disco alterando as letras de algumas das músicas que “diminuíam a imagem da mulher” segundo a Revista Tpm (a qual eu recomendo fortemente a leitura da entrevista linkada com o cantor).

Vi a notícia no feed do Facebook e, no primeiro instante, cliquei em curtir sem pensar muito – assim como a maioria das coisas. Alguns minutos depois, no meio de um almoço sozinha em que o plano era atualizar minha lista de leituras no Kindle, voltei ao celular e resolvi ler os comentários.

“Nunca leia os comentários”, repetia o mestre budista que vive dentro da minha cabeça minha terapeuta, mas não adiantou.

Naquele espaço, mulheres em grande maioria, chamavam as amigas para o assunto e escreviam: “como ele é foda”, “por isso que sou fã”. A sensação que tive ao ouvir Vasilhame pela primeira vez ressurgiu.

Por que a gente ainda acha o máximo quando uma pessoa não fez mais que a sua obrigação?

Letras que não diminuam a mulher – ou qualquer pessoa -, marcas que apoiam minorias em suas campanhas, o Papa dizendo que a igreja deve desculpas as mulheres e aos homossexuais (aos índios, negros, crianças e adultos molestados por membros da religião… a lista é longa)… As pessoas só se alegram com isso porque esquecem que o princípio básico de tudo é o respeito. Enquanto as suas atitudes se basearem no respeito ao outro, não tem porque admirar o que sai da curva.

Acho, sim, que aprender com os erros e voltar atrás é válido em todas as situações e acho muito legal que um cantor como o Criolo, que fala com muitos jovens, tenha uma atitude assim. Acho também que os movimentos culturais e mudanças comportamentais que a internet trouxe a tona nos últimos anos, são importantíssimos. Ninguém muda o mundo pedindo por favorzinho, li uma vez. O que não dá é visar lucro/exposição/bom mocismo em cima da desgraça dos outros.

No fim, me parece que a vida e os noticiários não passam de um quadro do Caldeirão do Huck. Mas, assim como Criolo, sigo tentando acreditar: “as pessoas não são más, elas só estão perdidas. Ainda há tempo”.

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4 comentários sobre “Ainda há tempo

  1. Letícia Luz disse:

    Sim! Inclusive eu li a respeito (mas bem por cima, então não sei muito) que ele mudou as letras falando sobre travesti e etc e que não tinha mudado sobre o que ele diz sobre as mulheres. Não sei, mas mulher sempre vem por último.

    Recentemente o Duvivier fez uma piada de mal gosto, várias mulheres criticaram e ele pediu desculpas assumindo o erro. Ok, acontece, normal. Mas as pessoas endeusaram essa atitude, assim como endeusaram a atitude do Criolo.

    Ué, pedir desculpas não é mais que obrigação. Só que as pessoas têm essa necessidade de endeusar a outra, colocar no pedestal e falar que ela é demais SÓ por fazer o básico. Aquele meme dos olhos virando nunca foi tão útil.

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    • Ana Sasso disse:

      Sim! Inclusive escrevi esse texto semana passada, antes dessa história do Duvivier, e não postei porque estava digerindo ainda, hahaha. Mas depois disso, acabei postando, hahaha.

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