Uber, shampoo e binarismos

Quando eu era adolescente, li um texto da Nina Lemos que traçava uma ligação entre esperar um amor e esperar um ônibus ou pegar um táxi em um dia de chuva. Por algum motivo, lembrei desse texto hoje.

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Até pouco tempo atrás era assim:  você estava na rua, começava a chover e você podia optar entre pegar um táxi ou esperar um ônibus no ponto.

Hoje, se o mesmo acontece, o mais óbvio é procurar um local com wi-fi disponível para pedir um uber. Ou um táxi por um app. Ou entrar no Facebook e postar sua localização, perguntando se algum amigo seu está por perto para te dar uma carona ou esperar o trânsito melhorar juntos. Ou até que o Waze aponte as três melhores rotas para que vocês cheguem em casa em segurança secos.

No amor, você pode esperar sua cara metade ou viajar o mundo sozinho – e até viajar o mundo ao lado da sua cara metade. Você pode também se relacionar com alguém do mesmo sexo ou do oposto. Ou do mesmo sexo que o seu, mas que esteja em transição para o outro.

[Pop-up mental] Pode ser até que seu filho seja essa pessoa que está em transição e todos os planos que você fez para ele, desde o nome que escolheu, estejam indo por água abaixo. E você vai aceitar, porque é isso que os pais e as pessoas que nos amam fazem por nós. Simples assim. [/Pop-up mental]

No chuveiro, você pode escolher entre shampoo para eliminar o frizz, estimular o crescimento ou recuperar os fios. Se você acompanha as últimas tendências capilares, sabe que também deve escolher entre diluir o shampoo ou fazer loo poo. Na hora de condicionar, dá pra seguir a escolha do shampoo ou optar por uma máscara de hidratação em 3 minutos. Ou uma ampola. Ou… não passar nada e se rebelar contra o sistema e todas essas imposições que a sociedade coloca sob nos nossos corpos.

E foi entre as dezenas de opções que se abrigam no meu banheiro que lembrei do texto da Nina e comecei a me questionar sobre a quantidade absurda de opções que temos que escolher o tempo todo. Algumas facilmente excluíveis (existe essa palavra?), outras nem tanto. Tudo isso só me fez pensar que, se por um lado as escolhas são imensas, por outro partimos para um binarismo, um FlaxFlu absurdo que não leva a lugar algum.

Na política, por exemplo, dizer que toda direita é burra, sem pensar que a direita vai além do que está nos noticiários, é besteira. Da mesma forma, apoiar a extrema direita por odiar a esquerda  (?) pode ser uma bobagem sem tamanho e com resultados horríveis, como aponta a matéria O perigo do ódio, da edição 106 da revista OCAS (infelizmente não disponível online, mas que eu recomendo muito):

No fim, talvez a gente devesse levar nossas escolhas menos a sério: a vida vai muito além de uber x taxi, esquerda x direita, motoristas x ciclistas. Ou, como diz aquele filósofo, é preciso amar as pessoas como se não houvesse Facebook.

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