Nenhum homem (ou empresa) é uma ilha

Dia desses, lendo uma revista sobre carreira, percebi que mais da metade das matérias e notas da publicação falavam, em algum momento e de diferentes maneiras, sobre cultura organizacional.

Antes de chegar ao final da edição, me peguei questionando a relação entre tantas empresas abordando esse assunto e o número de pessoas infelizes com o trabalho. Afinal, 9 entre 10 das pessoas que convivem comigo não estão satisfeitas enquanto, cada vez mais, vejo companhias abordando esse tópico na mídia e com ações de RP.

No ano passado, uma pesquisa feita pela Michel Peggy, apontou que 76% dos brasileiros estão infelizes com o trabalho. O mesmo documento diz que 59% estão descontentes com o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal, 31% desmotivados e 81% se sentem enganados pelas propostas após as contratações.

Outro estudo, também de 2016, diz que 52% dos “trintões” se define como “frustrado” ao falar sobre trabalho. Pesquisas parecidas, realizadas em 2015 e 2013, mostram resultados parecidos. Mostram também que a infelicidade no trabalho é algo que cresce a cada ano – e não é uma “tendência tão nova assim. É irônico, para dizer o mínimo, que aumenta o número de empresas falando na mídia sobre cultura organizacional ao mesmo tempo que a infelicidade em relação ao trabalho cresce também?

Analisando friamente, mais da metade de nós é infeliz durante 8 horas (ou mais) do seu dia. Se considerar o tempo de trajeto para o trabalho e o trânsito das grandes metrópoles, esse tempo aumenta ainda mais.

Dizem que reconquistar um cliente custa cinco vezes mais do que manter um antigo. Perder um funcionário, junto todo o tempo e treinamento investidos, deve ser bem mais caro que isso.

Já passei por todo tipo de empresa: de encubadora gringa, passando por escritório com 3 funcionários a ficar mais de 15 minutos na fila do elevador do prédio de empresa com mais de 8 mil funcionários; experiências boas e ruins.

Do alto da minha – pouca – experiência, entendi que uma (boa) cultura organizacional vai muito além de aparecer na edição anual das Melhores Empresas Para Trabalhar.

Ao meu ver, o básico para qualquer empresa manter funcionários felizes envolve salários e jornadas justas para ambos os lados. Com isso, bônus, salas de descompressão, massagens semanais e escritórios moderninhos perdem toda a relevância e torna-se importante só o que todo bom empregado merece: reconhecimento.

Ganhar dinheiro é necessário, maravilhosos, e é com ele – não com “benefícios” – que pagamos os boletos no fim do mês. Mas perceber que seu trabalho tem algum valor custa pouco ou nada. E, na maioria das vezes, vale mais que um aumento.

Em 2025, os millennials serão 75% da força de trabalho no mundo. Essas mesmas pessoas, que tem entre 21 a 35 anos, valorizam mais o propósito de uma empresa do que dinheiro ou lucro.

John Donne dizia que “nenhum homem é uma ilha” e, dia desses, escutei o Papa repetindo essa frase em um TED Talks com título bastante autoexplicativo: Why the only future worth building includes everyone. Peço perdão ao poeta e ao Papa, mas acrescento: nenhuma empresa, também, é uma ilha. Afinal, quem faz empresas são pessoas. E, no final das contas, o que importa mesmo são quais sentimentos você carrega na volta para casa.

*Texto publicado originalmente no Pulse, do Linkedin, em maio/2017. 

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