O jornalismo vai salvar o mundo (mas não do jeito que você imagina)

Não há como começar esse texto sem algum clichê: vivemos em um mundo conectado; o mundo e o jornalismo mudaram, etc, etc. A mudança é a única constância e certeza na vida e na profissão de todos nós. Dia desses, por exemplo, ouvi de palestrante que “se oitenta por cento do seu trabalho é rotina, você provavelmente vai perdê-lo em cinco anos”. 

Porém, em um mundo no qual o Sensacionalista tem uma coluna em uma das maiores revistas do país e  o Zorra Total passou a fazer sentido, a importância de ensinar jornalismo desde o ensino básico se mostra cada vez maior para que os mais novos aprendam a ter pensamento crítico e também para questionar tudo o que lêem.

Me sinto até um pouco estúpida por dizer que nós, que já passamos dessa idade também (e ainda!) precisamos aprender como a mídia trabalha e quais são seus interesses ao publicar algo ou não fazê-lo.

Além disso, vejo colegas de todas as idades reproduzindo conteúdos falsos e boatos com uma frequência maior do que a gostaria. É cada vez mais relevante aprender a identificar notícias falsas antes de reproduzi-las – seja em uma rede social ou em mesas de bar.

Precisamos lembrar que, em 2016, pós-verdade foi eleita a palavra do ano pelo dicionário Oxford. No mesmo ano, o Facebook passou a se preocupar em alertar notícias falsas aos usuários e estudantes desenvolveram uma ferramenta que usa algoritmos para apontar quando algo não parece real. Algumas vezes as notícias reais são tão absurdas, que parecem ficção (recomendo a leitura do A realidade implodiu a ficção sorrateiramente, da Aline Valek).

Tenho incansáveis críticas a área e ao mercado de comunicação. A faculdade de jornalismo, por exemplo, é cansativa e tem uma grade retrógrada. Estuda-se exaustivamente técnicas inúteis enquanto o mundo está – literalmente – pegando fogo fora da sala de aula. Porém, pessoalmente, o que tenho a dizer é que trabalhar em algumas redações foi a melhor formação que a vida poderia ter me dado. 

Meu primeiro editor dizia que “não se faz jornalismo na frente do computador” e, quando possível, me mandava trabalhar na rua. Apesar de defender a tecnologia, continuo acreditando que, em qualquer profissão, pouco se faz por detrás das telas.

Pop-up: Me lembro sempre de um “causo” contado por um professor cheio de diplomas internacionais. Ficou responsável por apresentar um serviço para comerciantes. Fez um Keynote com o case de Chilli Beans para seu público e, do meio para o final da apresentação, um dos presentes levantou a mão e… perguntou o que era Chilli Beans. 

Acredito que uma pessoa que não se coloca no lugar do outro, pouco consegue fazer pelo mundo – ou por seu trabalho. Comigo, foi o jornalismo que me fez sair da minha bolha de privilégios: subi em favela, conversei com crianças que trabalhavam no farol e conheci pessoas que tiravam seu sustento do Rio TietêTudo isso é fundamental para a minha formação como pessoa.

Foi o jornalismo que me ensinou – goela abaixo – a ter empatia e questionar muito antes de chegar perto de qualquer conclusão. Ninguém precisa exercer a profissão para isso. Basta olhar, parte para si, parte para fora.

A pergunta que fica é: a quem interessa nos ensinar jornalismo? 

Se você leu esse texto até aqui, acho que esses também podem ser do seu interesse:

Novo protagonismo estudantil

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*Texto publicado originalmente no Pulse, do Linkedin.

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