uma carta

oi. lembra da primeira vez que a gente saiu?
eu me apaixonei no momento em que percebi que a gente queria as mesmas coisas: uma casa, um lugarzinho pra visitar e uma vida tranquila. naquele momento eu soube que era você. que eu poderia me jogar sem medo e que ainda sim, seria você. que eu poderia resolver ir pra balada ou beber demais numa terça feira que ficaria tudo bem, porque do meu lado estaria você. eu me senti segura.

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senti que, finalmente, eu tinha encontrado alguém que – assim como eu ou cazuza – buscava um amor tranquilo. ai, que clichê! eu vi a nossa vida toda naquela mesa de bar, e eu tinha certeza que seria assim.
mas não foi.
sabe, eu não sei você, mas eu tenho essa mania em querer saber o que vai acontecer no futuro. é foda, porque a gente, quem vive assim, muitas vezes deixa de olhar para o presente. e sofre. nossa, como sofre. não é fácil conviver comigo. eu estou sempre “em busca de”.
em busca de alguém pra seguir ao meu lado.
pra querer as mesmas coisas que eu.
em busca de uma pele sem manchas.
um cabelo hidratado.
uma roupa que só existe na minha cabeça.
um lugar novo.
uma casa nova.
um móvel novo para a casa velha.
mudar as coisas de lugar.
colocar o abajur e a iluminaria em outro canto. fazer parecer com
uma viagem. ah, quantas viagens.
um trabalho. que só talvez só exista na minha cabeça também.
uma memória.
um remédio.
dormir melhor.
comer melhor.
um amor tranquilo.
uma droga. que droga!
“existe sempre algo faltante que me enlouquece”. tá escrito na parede, em frente ao lugar que sento pra escrever. você já parou pra ler?
eu continuo querendo uma vida tranquila com você. mas eu também queria que você me olhasse como antes. seu olhar – e suas mãos – sempre me fizeram estremecer. pode ser meio besta, mas o jeito que você troca marcha no carro me faz umedecer. você sempre soube o que queria: terminar a faculdade, provar que todo mundo que duvidou de você estava errado, conseguir um emprego, eu.
mas e ai?
o que a gente faz quando consegue tudo o que sempre quis? desiste?
desde os 12 anos eu sabia tudo que faria da minha vida até os 30. já faz alguns anos que fiz. um pouco mais do que imaginava, em muitas instâncias, e muito menos em outras. mas fiz. do melhor jeito que poderia fazer. o que a gente faz quando consegue tudo o que sempre quis?

você me diz que quer ser feliz, mas a troco de quê? quer ser feliz comigo ou quer ser feliz não importa o que aconteça? não importa por cima de quem a gente passe? às vezes a gente precisa ser infeliz um pouquinho pra ser feliz um tantão. às vezes a gente tem que fazer algo que não quer pra alcançar o que quer. às vezes a gente erra, também. às vezes a gente acha que o sofrimento ali, no presente, é tipo uma prova pra alcançar a felicidade depois. uma culpa católica, não sei. mas nem sempre – quase sempre, na minha experiência – isso dá certo. a gente fica sofrendo, sofrendo, achando que em algum momento vai melhorar, mas não melhora. é tipo aquele emprego ruim que você acha que, se se esforçar bastante, vão te notar. se você sofrer bastante, a recompensa virá. mas, olha, nem sempre vem. no pain, no pain. a gente não precisa sofrer pra ser feliz.

você quer ser feliz comigo?
mesmo nas minhas doideras – e eu sei que sou punk -, mesmo num museu lotado no sábado à tarde, além das selfies e do instagram? você quer ser feliz comigo sem uma carta de amor? sem uma música, um livro ou um poema dedicado à você? mesmo quando os remédios me deixam sem sentir nada ou quando me fazem sentir tudo de uma vez? você quer?

eu gostaria que você soubesse que não existe pessoa no mundo que eu ame mais que a mim mesma. às vezes eu me esqueço disso, mas é verdade.

uma vez meu pai me disse que me amava ainda mais do que amava minha mãe, porque eles poderiam deixar de ser, mas ele jamais deixaria de ser meu pai. hoje eu acho que não. que a gente ama um filho quase o tanto que ama a si mesmo – mas nem por isso deixa de ser egoísta de vez em quando. egoísmo, não. talvez seja questão de sobrevivência. para os dois. porque é peso demais pra um filho ser amado assim.
é por isso que, no fundo, todos os meus textos são sobre mim. tudo o que eu faço, produzo e penso, é sobre mim. você é o meu acompanhamento. salada, purê ou batata frita.
isso não quer dizer que eu não te ame, ou que seja pouco. não é.
mas quer dizer que, algumas vezes, eu vou tomar decisões que vão te fazer infeliz. e se você está infeliz, eu também vou estar. entende a lógica nisso tudo? eu vou ser dura. e eu sou, mesmo. comigo e com você e com quem quiser passar pela minha vida.
mas é porque, no final, é isso mesmo. minha vida. a gente pode deixar de ser. mas eu não posso – não quero, não consigo – deixar de ser eu.
e nem você.
o que eu preciso saber agora é se você ainda quer a casinha, o lugar pra visitar e a vida tranquila. não porque eu ache que seja pouco. mas porque eu acho que é a base pra tudo o que a gente construir.

 

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