Hilda,

Escrevo para-ti  da praia, em meio a um festival dedicado à seu nome. Me questiono o que pensaria sobre isso. Alguém já tentou contato com você, Hilda?

Não estudo sua obra, tampouco sua vida, mas questiono e sinto os mesmos anseios que percebo em você. Morte. Vida. Deus. Amor.

Vejo nomes de casais escritos em alguns cadeados, presos à uma ponte. Acho engraçado que a tranca seja o símbolo escolhido por alguns apaixonados. O vazio do infinito. O centro do universo. Penso em escrever Eu em um deles. Com maiúscula, assim como a Morte.

É que para derramar-me em alguém preciso, antes, derramar-me em mim. Se não, não há o que derramar. Fico oca, em vácuo, no limbo. Que lugar horrível para ser.

Ouvi, de um de seus conhecidos, que você viveu uma vida sem concessões. Espero que seja verdade.  Peço: se puder, me fale sobre isso.

Em meio à tantos ruídos, questiono: quais concessões valem a pena ser vividas? Se é que valem, se é que existem. Continuo: quais escolhas são conscientes? Despertas? É possível fazê-las? Abro mão de quê para quê?

É claro que somos loucas, penso. Considerando o lugar em que vivemos, os anseios que absorvemos, o que captamos, formas como vivemos. O fluxo constante. É claro que ouvimos vozes, dado os ruídos que nos acompanham. Não me assusta a vida reclusa.

Os mortos vivem, Hilda. Os vivos morrem. Pego o trem.

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uma carta

oi. lembra da primeira vez que a gente saiu?
eu me apaixonei no momento em que percebi que a gente queria as mesmas coisas: uma casa, um lugarzinho pra visitar e uma vida tranquila. naquele momento eu soube que era você. que eu poderia me jogar sem medo e que ainda sim, seria você. que eu poderia resolver ir pra balada ou beber demais numa terça feira que ficaria tudo bem, porque do meu lado estaria você. eu me senti segura.

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as porteñas estão cansadas

é difícil passar por alguma esquina de buenos aires sem ver muros com palavras de ordem. a argentina passa por um momento histórico e são nos muros que se discute a violência do estado, o desaparecimento de corpos, o feminicídio, o feminismo e, até, a morte de marielle. são nos muros que vemos que não estamos tão distantes assim.
as cidades são das pessoas e os muros ilustram o que ainda pouca gente tem coragem de discutir. por isso talvez ainda seja tão difícil para muita gente aceitar esse tipo de arte.

olhar para os muros é, principalmente, olhar para fora. para o que está além da nossa realidade e dos nosso privilégios.


sobre obviedades

no ano passado, quando participei do leia mulheres sobre o livro “outros jeitos de usar a boca”, uma das coisas que percebi foi a dificuldade que temos em dizer o óbvio. a rupi kaur, autora do livro, é muito criticada porque, supostamente, o que ela produz é tão simples que não pode ser considerado poesia.

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sobre processo de criação e autodescobrimento

ontem comecei o curso de escrita para a TV da shonda rhimes no masterclass. e nós duas temos algo em comum: nosso processo de criação começa nas notas do celular.

é louco porque não funciona, pelo menos pra mim, essa imagem do escritor que senta de frente para uma janela com seu notebook e para tudo pra escrever (olá, carrie bradshaw!). meu processo de criação começa naquele estado em que não estou nem dormindo, nem acordada. acho que é o momento em que estou mais receptiva para minhas ideias. são elas que me despertam. e é de manhã, antes que eu possa ser invadida pelo dia, que escrevo as coisas que mais gosto.

começam com uma ou duas frases, que se repetem na cabeça feito música (mais um exemplo que a shonda usa no curso!) e viram alguma coisa com mais sustância. foi assim que escrevi meu tcc, ainda na faculdade, e é assim que estou me descobrindo nos últimos tempos. que bom!

(ah! e a título de curiosidade, essa imagem é só o final de um poema que ainda estou trabalhando 👩🏻‍💻🙃)

esse post foi originalmente publicado no instagram. alguns posts que aparecem por lá, são republicados aqui com conteúdo que considero mais extenso e não tão interessante para o público do instagram. o inverso também pode acontecer. me siga por lá :)