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Mataram-nos 49, auto-explicativo

O like que machuca, sobre conteúdo difamatório na web

Sobre como é difícil criar um filho não machista em um mundo machista

Mini manual do jornalismo humanizado, para todo mundo que escreve

Como ter uma carreira, mini lições que todo mundo deveria saber

Viver é coisa para maluco, entrevista com a Maria Eugênia, do Adotada – um dos melhores programas da TV atualmente, para a Revista TPM

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Mulher de verdade

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Mulher de verdade tem curvas.

Mulher de verdade trabalha.

Não se importa com que os outros pensam.

Não alisa o cabelo.

Come glúten. Toma cerveja.

Tem pancinha. Malha.

Não chora.

Não tem TPM.

Não usa 36.

Não faz plástica.

Se aceita como é.

Não faz análise.

É supermãe. Acorda na madrugada, leva os filhos na escola, no inglês e no futebol.

Trabalha 40, 50, 60 horas semanais!

É casada.

Cria os filhos sozinha.

Não precisa de ajuda.

Não chora.

A vida inteira me senti na cena de Alice no País das Maravilhas em que ela toma um líquido, diminui e, então, fica pequena demais para o mundo – mas não o bastante para passar pela porta em que deseja atravessar. Então, come um bolinho. E cresce… até bater a cabeça no teto. Chora e, quando volta ao tamanho “normal”, quase se afoga nas próprias lágrimas. É inadequada. Não cabe. Não serve. Não presta. Não passa. Não, não e nãos. Vezenquando um sim.

Talvez a vida seja mesmo essa eterna inadequação. Ou talvez o mundo é que tenha que se adequar a nossa inadequação e, assim, tornar o inadequado o novo adequado.

Apesar de

Por muitos anos, o verão foi minha estação preferida: férias, piscina, finais de semana na praia, amores que nunca subiram a serra, ver o fim de tarde deitada em uma rede ou chupar manga – direto do pé – sentada em uma varanda.

paris janela apesar de Continuar lendo

Tem que publicar, sim

Dia desses eu li um texto chamado Você não é como aquelas, no Lugar de Mulher, que dizia:

No fim das contas eu percebi que eu sou sim, muito dessas, desse tipo de garota, igual a milhões de garotas – as violências a que somos submetidas, físicas, sexuais, emocionais, simbólicas, estruturais muito mais nos aproximam do que nos separam.

E essa frase veio bem a calhar com o momento que venho enfrentando. Primeiro veio o livro Faça Acontecer – Mulheres, Trabalho e a Vontade de Liderar, da Sheryl Sandberg, chefe operacional do Facebook e ex-diretora no Google. Apesar de o título nenhum pouco atrativo e meio auto-ajuda, baixei no Kindle e comecei a ler por influência desse post da Thais Farafage. 

Nas primeiras páginas, me fisgou:

Faça Acontecer Mulheres, Trabalho e a Vontade de Liderar Sheryl Sandberg google facebook resenha

Então, comecei a pensar em todas as coisas que, aimeudeus, só aconteciam comigo, mulher, branca e injustiçada da classe média. E ficou óbvio que tudo isso não era só comigo. Finalmente enxerguei o motivo de todas as minhas inseguranças e “neuras”. E percebi que elas não eram só minhas – e olha que estávamos falando de ambiente e relações profissionais.

É claro que eu sou feminista. É claro que eu sempre soube dos abusos e violências que nós ouvimos ao longo da vida. Mas nunca – e escrevo com um pouco de vergonha aqui – parei um segundo para pensar no quanto isso vai além e se desenvolve em todos os aspectos da nossa vida:

O professor de marketing que estudou ~nas melhores universidades do mundo~ interrompendo minha apresentação para fazer observações machistas/homofóbicas/preconceituosas. O chefe que, tentando parecer legal, pediu para que os colegas de trabalho me respeitassem porque “eu era mãe” (se não fosse, tudo bem me tratar feito lixo?). Diretor de empresa dizendo que “podia ser meu pai se eu quisesse”, depois de ver minha tatuagem escrito pai, no pulso. Ouvir que não podia fazer algo porque “não é coisa de menina”, que eu deveria me vestir “mais como uma mocinha” ou “não usar roupas curtas” e “tentar não chamar a atenção”. Relacionamento abusivo no qual “se eu fizesse mais uma tatuagem ou pintasse o cabelo de novo”, iria ficar solteira. Ficar apertada no transporte público, porque o ômi do lado resolveu que as pernas dele merecem mais espaço que as minhas. Morrer de medo no transporte público porque algum cara está olhando estranho. Ouvir a colega de trabalho dizer que fulaninho “só podia estar apaixonado por mim”, quando ganhei um elogio público pelo trabalho bem feito.

Poderia escrever só sobre isso. Mas hoje, não, porque depois desse livro veio ainda a oficina de escrita criativa da Clara Averbuck (que já comentei nesse texto), com uma turma~ de cinco mulheres incríveis. Logo nas apresentações, mais um tapa na cara: todas tinham vergonha do que que escreviam. Todas temiam que seus personagens e textos fossem reconhecidos na vida real. E, claro, todas – com textos incríveis – tinham inseguranças e alguém para atravancar o caminho da escrita – ou da vida. “Não pode ter vergonha de publicar! Olha o monte de merda que ozomi publicam sem vergonha nenhuma”, falou a Clara. Como diria meu filho: turn down for whaaa.

E aí me lembrei da primeira vez que parei para levar um clipe da Madonna a sério, com uns 11 anos:

Não é fácil, molieres. Mas se a gente não se unir/publicar/falar, vai ser ainda mais difícil. Uni-vos.

Só quem se mostra se encontra

Já há algum tempo eu evito escutar Cazuza. Assisti ao filme tantas vezes, mergulhei tanto em sua história que grande parte do que ele compôs passou a me trazer uma sensação ruim.

Ainda sim, o cara tem uma frase que corre solta no Facebook (talvez com o codinome Clarice Lispector):

“Nunca tive medo de me mostrar. Você pode ficar escondido em casa, protegido pelas paredes. Mas você está vivo. Essa vida é para se mostrar. Só quem se mostra se encontra, por mais que se perca no caminho.”

Pois é. A gente está vivo, mas como é difícil se mostrar – e mais ainda se encontrar.

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