Voltas

Até os quinze anos tomar sorvete era quase que proibido para mim. Era como cabular aula ou rabiscar os tênis da escola: eu sabia que, cedo ou tarde, iria me encrencar por isso. Comumente o castigo vinha na manhã seguinte, com uma dor de garganta que, muitas vezes, me deixava dias sem comer. Só tive sossego quando retirei as amígdalas. Talvez por isso ainda me lembre, com detalhes, da primeira vez em que tomei benzetacil.

Era um domingo de sol forte e céu azul, mas vento frio. Me lembro da data porque era naquele dia que algum dos jornais de São Paulo oferecia Lego como brinde na sua compra.

Aquela era a segunda ou terceira visita ao doutor Zelik em poucos dias. Minha garganta estava inflamada e já havia tomado amoxicilina – antibiótico o qual, depois de algum tempo, passei até a apreciar o sabor – mas dor e febre não cessavam. O médico sugeriu a injeção e disse que iria doer “só um pouquinho”. Foi também nesse dia que aprendi que, quando médicos colocam “inho” ou “inha” em alguma palavra, quer dizer que vai doer para caralho.

Na saída, eu não sabia mais qual era a nascente da dor: garganta ou o local da injeção. Não me lembro quantos anos tinha, mas me recordo do conforto em ter meu pai me carregando no colo até o carro – apesar de a clínica ficar há cinco minutos de distância da minha casa.

Em casa, ganhei o Lego e o jornal daquele domingo, acompanhados de qualquer brinde do MC Lanche Feliz. E eu, que não comia carne, nem precisei enfrentar aquele cheese burguer horroroso por um brinquedo qualquer – nos anos 1990, Nuggets ainda não faziam parte do cardápio.

Algum tempo depois, mais uma vez com a garganta inflamada, cheguei ao hospital e, decidida, pedi: “doutor, quero tomar benzetacil”. O médico ficou encantado com a minha coragem. Mal podia imaginar que, na verdade, o que eu queria era a mão de minha mãe junto com a minha, enquanto a agulha perfurava minha pele.

Hoje, quase aos 26, acompanhei minha mãe ao médico pela primeira vez. Eram exames, e não injeções de rotina. Os procedimentos levaram quase duas horas para acontecer e eu me vi, naquela sala de espera branca e gelada, sem uma mão para segurar. Enquanto a televisão exibia qualquer programa da tarde e idosos bem arrumados iam e vinham do corredor de exames, e eu, sem sucesso, tentava me concentrar no enredo de um livro qualquer. Do alto de minha imaginação fantasmagórica, só conseguia imaginar minha mãe, nua, desmaiando durante algum dos exames, enquanto os médicos corriam para socorrê-la, como em um episódio de Plantão Médico.

Depois de uma hora e quarenta minutos na espera, não aguentei e, como num surto súbito, levantei da cadeira, que se arrastou pelo chão, fazendo um barulho alto na sala vazia. Questionei o atendente sobre a demora, que ligou para o médico do outro lado da porta de vidro. “Ela está finalizando o último exame, deve voltar em dez ou quinze minutos”, respondeu.

Sento mais uma vez e aguardo, dessa vez em silêncio. Vinte e um minutos depois ela surge, e diz: “Vamos logo, estou com frio. Estava até agora pelada, esperando tudo acabar. Estou cheia de gel, quero tomar banho”. Damos risada, enquanto me dirijo até a banca de jornal e o MC Donald’s mais próximo, tal qual alguns anos atrás.

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Fada madrinha

Era madrugada. Acendi o celular, procurei, procurei, nada. De repente, três indianos apareceram, enquanto eu, de quatro, no meio da grama, procurava minhas chaves. “Eu pulo o portão e abro pra você, por dentro”, um deles sugeriu. Eu neguei. “Você é louco?! A câmera vai te filmar”, disse o outro. Confirmei com a cabeça. Ele insistia em pular o portão e, enquanto eu insistia que não era preciso, reparei que os três estavam bêbados.

Um guarda apareceu. Abracei-o, sem pensar na situação constrangedora. Expliquei a situação, mas ele duvidou. Ainda sim, abriu o portão para mim. O indiano nos acompanhou até o elevador, de onde o guarda foi comigo até a porta do apartamento – que por sorte estava aberta.

Na manhã seguinte, com o dia nascido, a cena se repetiu: de quatro, próxima aos arbustos, blasfemava em português. Não fossem os espinhos, me enfiava ali no meio, pensava. Escuto um cochicho. Olho para os lados, ainda de cócoras. Vejo uma senhora loira, que poderia muito bem ter saído de The Real Desperate Housewives of Orange County, com um cachorr(inho) ao lado. Enquanto me levanto – e procuro pela minha dignidade -, digo que não entendi. Ela repete: “Parece que você  perdeu algo”. Dou um sorriso e, limpando as mãos no shorts, digo: “Minhas chaves”. Ela ri. Eu completo: “Serão 300 dólares de multa, se não encontrar”. Ela continua: “You know, uma vez achei que tinha perdido um anel de diamantes”. Penso mais rápido do que consigo responder e não consigo disfarçar o riso no canto da boca. Ela continua: “mas então encontrei-o dentro de uma gaveta de lingerie”.

Rio novamente. Ela me cumprimenta e vai embora.

Abaixo mais uma vez. E, quase cega pelo brilho dos meus diamantes, enxergo minhas chaves douradas no meio da grama. Me levanto e procuro pela minha fada madrinha, que já desapareceu em meio a poeira de Orange County.

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Sorte

Eu sou míope. E, para piorar, tenho uma memória péssima. O que se completa com a minha agonia de qualquer coisa próxima aos meus olhos. Tudo isso quer dizer que: 1. não enxergo; 2. sempre esqueço os óculos, 3. não consigo usar lentes de contato.

Dito isso, a quarta coisa que você deve saber sobre mim é que tenho fama de metida. “Sempre achei que você era fresca” é a frase que mais escuto depois de conhecer alguém. Por isso, muitas das vezes me esforço para, pelo menos, parecer legal.

Dou bom dia. Sorrio. Às vezes, tanto que minhas bochechas doem e tenho crises de enxaqueca. Quase um castigo dos céus. Mas a maior penalidade por isso ainda é cumprimentar pessoas. O problema é que, como disse, não enxergo bem. E confundo pessoas. Retribuo tchauzinhos que são para as pessoas atrás de mim. Paro o que estou fazendo, dou beijinho no rosto e, só então, percebo que era a pessoa errada. Ou então me apresento e completo com um efusivo “prazer!”, no final da frase, para só então ouvir: “Mas a gente já se conhece! Não lembra de mim?”, e responder com um sorriso amarelo ou um abraço (sincero) de desculpa.

Para completar minha sorte, arquitetaram minha área no trabalho com duas Ana’s sentadas ao meu redor. Ontem, o seguinte diálogo aconteceu:

– Ana!

– Oi, querida!

E a pessoa caminha até a mesa ao lado, rindo, sem entender nada do que acabou de acontecer.

Ainda sim, tenho um trevo de quatro folhas tatuado. Vai que…