Hilda,

Escrevo para-ti  da praia, em meio a um festival dedicado à seu nome. Me questiono o que pensaria sobre isso. Alguém já tentou contato com você, Hilda?

Não estudo sua obra, tampouco sua vida, mas questiono e sinto os mesmos anseios que percebo em você. Morte. Vida. Deus. Amor.

Vejo nomes de casais escritos em alguns cadeados, presos à uma ponte. Acho engraçado que a tranca seja o símbolo escolhido por alguns apaixonados. O vazio do infinito. O centro do universo. Penso em escrever Eu em um deles. Com maiúscula, assim como a Morte.

É que para derramar-me em alguém preciso, antes, derramar-me em mim. Se não, não há o que derramar. Fico oca, em vácuo, no limbo. Que lugar horrível para ser.

Ouvi, de um de seus conhecidos, que você viveu uma vida sem concessões. Espero que seja verdade.  Peço: se puder, me fale sobre isso.

Em meio à tantos ruídos, questiono: quais concessões valem a pena ser vividas? Se é que valem, se é que existem. Continuo: quais escolhas são conscientes? Despertas? É possível fazê-las? Abro mão de quê para quê?

É claro que somos loucas, penso. Considerando o lugar em que vivemos, os anseios que absorvemos, o que captamos, formas como vivemos. O fluxo constante. É claro que ouvimos vozes, dado os ruídos que nos acompanham. Não me assusta a vida reclusa.

Os mortos vivem, Hilda. Os vivos morrem. Pego o trem.

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